Sexta-feira, Maio 18, 2012

Café


Quero um poema-capuccino
12 onças, por favor
sem açúcar nem acompanhamento...
Só para tingir de negro
esse céu gris que vejo afora
e levo adentro.

São 4,70
de um instante sem tempo...

E os carros que passam
os sinais que dizem
as pessoas que falam
uma película absurda
sob esse céu gris de cimento
que vejo afora e levo adentro,

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

Pai

O brilho hipotético dos seus olhos
incide sem inclinação sobre o abismo
em ponte de negruras e esperanças
pegada de sorrisos que se desdobram em ideias
e histórias...

Refletida no céu é ponte-pórtico
que por negativo me faz acreditar no celeste-azul
embalando no peito os encontros eternos
e olhos amigáveis que se embaraçam supernos
com a dialética fundamental descansando, alva,
nos cílios cerúleos de criança pequena.

Terça-feira, Fevereiro 07, 2012

Comadres

- E esse menino, por que tão diabético descompensado desnutrido?
- Ah, culpa da Disney.
- Empregadas...

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Theo

A eternidade
e um dia atropelada
por uma moto sem data
sangrando jaz no meio
dessas estradas poluidas
de políticas e de ruídos
inaudíveis
como a música doce
do que nunca se verá completo...

O último poente que cai vermelho
em lágrima solitária entenebrece
em abraço para o nada
e todos os dias.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Infância

... e seria uma tarde como outra qualquer se os dias não lhe fossem tão mágicos. Olhava pela janela a sutileza de Morfeu estendendo seu mando no céu, para fazê-lo da mesma maneira em seu quarto que não era um quarto do mundo senão o mundo e mais um quarto. Através do verbo Criador, tecia gravemente, como convém a um deus, ponto a ponto, linha a linha, a colcha de um planeta que não necessitava de sete dias para ser criado.

Mais generosa, ainda, povoava seu paraíso de infinitas invenções de pessoas, com direito, inclusive, ao livre-arbítrio que elas mereciam. Mais humilde, certamente, vivia no meio delas, nem melhor nem pior, nem mais densa ou menos densa. Talvez menos...

E o tempo, seu amigo violinista, se desenlaçava em diferentes sinfonias de tons coloridos, muito bem contorneadas de Sol Maior.
Nesta tarde, saindo do seu quarto, coisa que quase não fazia, na sala jazia a prima por debaixo de um menino que lhe subia a saia com a naturalidade de quem há muito o fazia; a mesma naturalidade com que ela o aceitava, como a um cachorro ao qual se acaricia.

Foi um raio de segundo que cortou o céu, iluminando-o somente para que se pudesse reconhecer a posterior escuridão amarga, escuridão esta que lhe entrava nos olhos em forma de pequenas agulhas. Voltou rapidamente, um caminho de três passos que durou só Deus sabe quanto... Não, nem Deus seria capaz de sabê-lo. Quem entende de abismos é o Diabo.

A prima, moça de vinte anos, escultura feita do mais poderoso ímã nunca jamais visto, pintada a mão no último trabalho de um bom artista…
Ela fechou a porta ao mesmo tempo em que fechava os olhos…
Mas, um maldito invejoso havia aplicado em suas veias uma quantidade desnecessária de um sangue de cor e textura singular…
Ia escorregando as costas na porta, com medo de abrir os olhos…
Ela nunca foi mais que uma boneca enfeitaçada, que nasceu fragmentada como um suspiro humano.

Abaixou a cabeça…

.

E algo explodiu em si como uma tempestade vermelha sem horizonte. Se não fosse pela cor vermelha da chuva tão repugnante, juraria que eram lágrimas de quem havia acabado de aprender a chorar somente por dentro. Essa chuva de agua de fogo, goteirando grossa, destruía efetivamente seu mundo, todas as estrelas postas tão calculadamente em seu manto… E com uma força contrariamente imensa espatifava a terra no céu, o dia na noite, até comprimir o universo, seu universo, no nada solitário e escuro, para onde ela teve a dolorida consciência de que iam todas as coisas.


Abriu o olhos…


Com uma dor surda olhou pela primeira vez como tudo sempre foi o que ela nunca havia conhecido. Em outra circunstância teria gritado… Correu para a janela donde pôde constatar com áspera resignação que a noite se via noite, as estrelas se viam estrelas e o mundo um sem fim de coisas como as que havia acabado de ver, povoado de humanos maciços de carne e osso e deus e tudo…

Então…

Lentamente…

Caminhou para o armário, colocando em cada passo uma esperança que se via débil como um pequeno inseto. Abriu-o com uma sobriedade que lhe era desconfortável e colocou aí todos seus livros espalhados, a matéria-prima de suas criações… Um ritual de encontro de si consigo, seu golpe de misericórdia, seu último presente de si-havia-sido para a possibilidade do que poderia ser. E, assim, inspirando uma coragem necessária, abriu a porta do quarto para tomar café e não a fechou mais.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

No fundo seus olhos

No fundo seus olhos
o improvável meneia as saias
que agita venenos
nos meus pensamentos

...

e por que tão verdes
essas esperanças voando
alheiamente ao nada?

Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

Cadência

ventana cerrada
lágrima solitaria
interminable invierno

Sexta-feira, Novembro 25, 2011

quem diria o segredo...

...quem diria o segredo
por debaixo dos olhos baixos
era a vida desvestida
inocentemente

quem diria o segredo
revelado a uma transeunte
qualquer no meio da estrada
despretensiosamente

e, no fim, quem diria
que as grandes questões
pudessem ser respondidas
em silêncio,
e que as grandes aventuras
jamais pagariam bons momentos
vividos verdadeiramente
pela amizade que se estende
sobre as incertezas
e plana por sobre essa rede de caminhos
pousando de vez em vez em borboleta dócil
qua bate asas eternas
desenhando sua figura
de como se fosse ontem...

...revelando, quem diria, o segredo,
por debaixo dos olhos baixos...

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

As faltas que vibram...

As faltas que vibram
como lâminas coloridas
silhueta contornada
em dança de fitas..

Terça-feira, Outubro 04, 2011

Amor líquido...

Amor líquido
medo líquido
vida líquida
modernidade líquida
e essa escassez de água

Quarta-feira, Julho 06, 2011

Aprender: verbo intransitivo

Primeiro eu soube que amar era uma coisa boa;

depois eu aprendi que amar é uma palavra derivada do latim 'amāre ';

depois eu aprendi que amar, palavra derivada do latim 'amāre ', pode ser um verbo transitivo direto, intransitivo ou pronominal;

depois eu aprendi que a palavra amar, derivada do latim 'amāre ', verbo transitivo direto, intransitivo ou pronominal, possui um radical 'am' no qual se liga uma vogal tematica 'a' e uma terminação de infinitivo 'r';

depois eu aprendi que a palavra amar, derivada do latim 'amāre ', verbo transitivo direto, intransitivo ou pronominal, que possui um radical 'am' no qual se liga uma vogal tematica 'a' e uma terminação de infinitivo 'r', tem dois grupos foneticos os quais podemos também chamar de sílabas;

e hoje eu não sei mais porra nenhuma.

Quinta-feira, Junho 23, 2011

Vista do entardecer em qualquer lugar




e uma falta de paciência
com a propria paciência
pra ciência
pra aquiescência
sem essência

para os des que voam no fim do tarde
(des-pe-da-ça-dos)
em sequência,
na encia inchada de vermelho
que não religa, e não modula,
é dissidência.

Sem paciência
nem sapiência...
Pastichência